Uso de infiltração articular do joelho com corticoide prejudica a cartilagem?

Injeções intra-articulares repetidas de corticoides no joelho estão associadas a maior perda de cartilagem, mas o uso ocasional para exacerbações sintomáticas parece ser relativamente seguro. A evidência mostra que o dano é dependente da dose e da frequência.

Evidência de dano com uso frequente

Um ensaio clínico randomizado de 2 anos com 140 pacientes demonstrou que injeções de triancinolona 40 mg a cada 3 meses resultaram em perda significativamente maior de volume de cartilagem comparado com injeções de solução salina (diferença de espessura de cartilagem: -0,11 mm; IC 95%: -0,20 a -0,03 mm), sem diferença significativa na dor.[1] Este regime de injeções regulares não reflete a prática clínica habitual, onde as injeções são administradas apenas para exacerbações sintomáticas.

Um estudo de 2025 da Osteoarthritis Initiative com 210 participantes confirmou que corticoides intra-articulares foram associados a maior progressão da osteoartrite por ressonância magnética comparado com controles (diferença média: 0,39; IC 95%: 0,05-0,75; P = 0,02) e ácido hialurônico (diferença: 0,42; IC 95%: 0,01-0,84; P = 0,04).[2]

Mecanismos de dano

Estudos básicos e animais demonstraram efeitos catabólicos dose-dependentes dos corticoides sobre proteínas da cartilagem, incluindo agrecano, colágeno tipo II e proteoglicanos, além de afetar a disponibilidade de condrócitos e a morfologia da cartilagem.[3]

Uso ocasional parece seguro

Um estudo de coorte de 5 anos com 564 pacientes mostrou que injeções de corticoides administradas apenas quando sintomáticas não aumentaram significativamente o risco de artroplastia total do joelho (HR 0,92; IC 95%: 0,20-4,14) ou piora radiográfica (HR 1,33; IC 95%: 0,64-2,79).[4] Isso contrasta com o regime de injeções regulares a cada 3 meses.

Recomendações atuais

As diretrizes de 2025 da American Society of Regional Anesthesia and Pain Medicine destacam preocupações sobre a saúde da cartilagem com injeções repetidas, especialmente com preparações como metilprednisolona, betametasona e triancinolona.[3] O New England Journal of Medicine afirma que “injeções regulares não são recomendadas”.[5]

As injeções de corticoides são eficazes para alívio de dor a curto prazo (algumas semanas) e podem ser úteis como terapia adjuvante para eventos específicos, mas não devem ser usadas de forma programada ou repetitiva.[5] O dano à cartilagem é tempo-dependente e dose-dependente.[6]

References

  1. Effect of Intra-articular Triamcinolone vs Saline on Knee Cartilage Volume and Pain in Patients With Knee Osteoarthritis: A Randomized Clinical Trial. McAlindon TE, LaValley MP, Harvey WF, et al. JAMA. 2017;317(19):1967-1975. doi:10.1001/jama.2017.5283.
  2. Intra-Articular Knee Injections and Progression of Knee Osteoarthritis: Data From the Osteoarthritis Initiative. Bharadwaj UU, Lynch JA, Joseph GB, et al. Radiology. 2025;315(2):e233081. doi:10.1148/radiol.233081.
  3. Use and Safety of Corticosteroid Injections in Joints and Musculoskeletal Soft Tissue: Guidelines From the American Society of Regional Anesthesia and Pain Medicine, the American Academy of Pain Medicine, the American Society of Interventional Pain Physicians, and the International Pain and Spine Intervention Society. Benzon HT, Provenzano DA, Nagpal A, et al. Regional Anesthesia and Pain Medicine. 2025;:rapm-2024-105656. doi:10.1136/rapm-2024-105656.
  4. Do Glucocorticoid Injections Increase the Risk of Knee Osteoarthritis Progression Over 5 Years?. Latourte A, Rat AC, Omorou A, et al. Arthritis & Rheumatology (Hoboken, N.J.). 2022;74(8):1343-1351. doi:10.1002/art.42118.
  5. Osteoarthritis of the Knee. Sharma L. The New England Journal of Medicine. 2021;384(1):51-59. doi:10.1056/NEJMcp1903768.
  6. Joint and Soft Tissue Injections. Creech-Organ JA, Szybist SE, Yurgil JL. American Family Physician. 2023;108(2):151-158.