
A osteoartrite patelofemoral (OAPF) é uma condição clínica degenerativa resultante da perda e degeneração da cartilagem articular da patela e da tróclea. Embora o foco da pesquisa ortopédica tenha se concentrado historicamente na osteoartrite tibiofemoral, a importância da articulação patelofemoral (PF) no contexto global da dor no joelho é cada vez mais reconhecida.
1. Introdução e Prevalência
A OAPF é uma das causas mais frequentes de dor anterior no joelho. Ela ocorre com maior frequência em mulheres e em pacientes com idade superior a 55 anos.
- Estatísticas: Em indivíduos com dor no joelho acima de 30 anos, a prevalência de OAPF chega a 39%.
- Isolamento: Aproximadamente 40% das pessoas com OAPF apresentam a doença isolada exclusivamente no compartimento patelofemoral.
- Impacto: A perda completa da cartilagem nessa articulação é debilitante e em alguns casos pode demandar procedimentos cirúrgicos
2. Fisiopatologia e Propriedades da Cartilagem
A cartilagem patelar possui propriedades bioquímicas e mecânicas distintas da cartilagem da tíbia e do fêmur.
- Características Físicas: É a cartilagem mais espessa, macia e permeável do corpo humano.
- Mecânica de Carga: Composta por uma fase sólida (colágeno e glicosaminoglicanos) e uma fase fluida. O efeito de amortecimento depende da pressão do fluido; qualquer fissura ou lesão na superfície diminui essa pressão e aumenta o estresse nas fibras de colágeno, levando à erosão.
- Modelagem: O modelo poroelástico reforçado por fibras (FRPE) é uma tecnologia de elementos finitos usada para capturar o comportamento mecânico dinâmico desta cartilagem.
O Papel dos Biomarcadores
Embora ainda não aprovados para diagnóstico clínico rotineiro, os biomarcadores ajudam a entender a progressão da doença:
- Degradação de Cartilagem: CTX-II (C-telopeptídeo de colágeno tipo II) e COMP (proteína oligomérica da matriz de cartilagem).
- Fatores Inflamatórios e Metabólicos: IL-6, TNF-a, leptina, insulina e adiponectina.
3. Biomecânica da Articulação Patelofemoral
Diferente da articulação tibiofemoral, a PF lida com magnitudes de pressão e distribuições de carga únicas.
- Movimentação Complexa: A patela se move em relação ao fêmur em três planos, com áreas de contato e pressões que variam conforme o grau de flexão.
- Vetor Lateralizador (Ângulo Q): O ângulo Q representa a força resultante dos quatro componentes do quadríceps, gerando uma força lateral que pode causar subluxação.

- Estabilidade: É mantida por estruturas estáticas (ligamentos MPFL e LPFL, cápsula, tróclea) e dinâmicas (quadríceps, especialmente o VMO, músculos do core e rotadores externos do quadril).
- Desequilíbrio Muscular: A ativação atrasada do VMO em relação ao vasto lateral (VL) está associada à dor patelofemoral e ao mau alinhamento lateral.
4. Causas da Osteoartrite Patelofemoral
A etiologia pode ser dividida entre fatores inatos e adquiridos.
Fatores Inatos
- Mau Alinhamento: O mau rastreio patelar leva a uma distribuição anormal de carga.
- Displasia Troclear: É uma anomalia morfológica na profundidade do sulco troclear. Está presente em 78% das patologias isoladas de OAPF.
- Instabilidade: Episódios de luxação da patela aumentam significativamente a chance de desenvolver artrite futuramente.
Fatores Adquiridos
- Trauma: Traumas diretos na frente do joelho, com ou sem fratura, predispõem à degeneração.
- Obesidade: Um IMC superior a $30kg/m^2$ é um fator de risco conhecido.
- Doenças Endócrinas: Diabetes, resistência à insulina, hipotireoidismo e insuficiência adrenocortical estão relacionados a processos inflamatórios que enfraquecem os tecidos e aumentam a carga na articulação.
5. Diagnóstico Clínico
O diagnóstico baseia-se na história clínica, identificação de riscos e exame físico estruturado.
Manifestações Clínicas
- Dor Anterior: Agravada por atividades como subir/descer escadas, ajoelhar, agachar ou levantar-se após longo tempo sentado (sinal do cinema).
- Crepitação e Rigidez: Pacientes frequentemente relatam sons articulares e sensação de travamento.
Exame Físico

- Alinhamento: Observação do ângulo Q, postura do pé e presença de “patela vesga” (squinting patella).
- Rastreio Patelar: Observação do movimento da patela; a presença de displasia troclear pode gerar o “sinal do J”.
- Palpação: Sensibilidade nas facetas medial e lateral é um sinal importante de OAPF.
- Teste de Clarke: Também chamado de teste de moagem patelar; é positivo se houver dor ao comprimir a patela contra a tróclea durante a contração do quadríceps (embora tenha alta taxa de falso-positivos).
6. Exames de Imagem e Classificação
Uma avaliação completa exige múltiplas visões radiográficas.
Radiologia Convencional
- Visão de Merchant (Skyline): Útil para avaliar o estreitamento do espaço articular.
- Lateral Verdadeira (30°): O padrão-ouro para diagnosticar displasia troclear, observando sinais como o sinal do cruzamento, o esporão supratroclear e o sinal do duplo contorno.
- Classificação de Iwano: Divide a OAPF em 4 estágios baseados no espaço articular:
- Estágio 1: Leve, com espaço > 3mm.
- Estágio 2: Moderado, com espaço < 3mm.
- Estágio 3: Grave, contato em menos de 1/2 da superfície.
- Estágio 4: Muito grave, contato em toda a superfície articular.

Tecnologias Avançadas
- Tomografia Computadorizada (TC): Recomendada para identificar a distância TT-TG (tuberosidade tibial ao sulco troclear) e báscula patelar.
- Ressonância Magnética (RM): Avalia danos precoces na cartilagem e outros compartimentos.
- Novas Fronteiras: Vibroartrografia (VAG) para detectar sons articulares, RM composicional, PET-RM e o uso de Inteligência Artificial para melhorar a precisão diagnóstica.
7. Conclusão e Perspectivas Futuras
A compreensão da biomecânica é a base para o planejamento do tratamento da OAPF. Causas inatas como mau alinhamento e displasia apresentam bons resultados com tratamento cirúrgico corretivo. O futuro da área reside no desenvolvimento de diagnósticos precoces através de novas tecnologias e em estudos prospectivos de longo prazo para determinar o melhor tratamento para cada causa específica de degeneração.
Aviso: Este artigo tem caráter informativo apenas. O diagnóstico e tratamento devem ser individualizados para cada paciente.
